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Conto: Alice

Alice caminhava lentamente sobre as tortas pedras do passeio da Rua do Almada. De saia preta travada e blusa branca, bengala para apoiar o peso do corpo na passada e um sorriso resplandecente no rosto enrugado, saía de casa para o seu passeio vespertino habitual pela cidade que a acolhera há 57 anos – quando saíra recém-casada da Régua, para morar com o seu amado esposo no Porto.

Tinha 16 anos quando conheceu o Porto pela primeira vez. João, arranjara um emprego nos Correios no Porto e ela, alegremente unida a ele não haviam passado ainda dois meses, não hesitou em seguir e apoiar o marido. Através dos Correios conheceram algumas moradas diferentes logo no primeiro ano, mas assim que entrou naquele prédio da Rua do Almada, algo lhe mexeu com o espírito. Teve a certeza de que era ali que iria ser feliz.

Não hesitou em contar ao marido aquela sensação que teve. Na altura, João era um jovem adulto com um físico robusto, feições graníticas e porte elegante. Sempre se destacara lá na terra pela sua beleza e charme. Contudo a sua soturnidade aparente intimidava os que não o conheciam verdadeiramente. Aquele que ostentava a beleza de um Adónis de mármore sem quaisquer emoções, era um ser sensível, compreensivo, carinhoso e responsável. Quando viu no olhar de Alice todo aquele entusiasmo, não hesitou em fazer-lhe a vontade. Na verdade, sentia que era sua obrigação fazer com que ela se sentisse bem ali no Porto, uma vez que apenas tinham saído da terra que os viu crescer por sua causa.

Até aos 27 anos foi uma dona de casa esmerada, cuidando das lides domésticas e dos filhos, Inês e Pedro. Nessa altura, a filha já tinha 10 anos – apesar de a sua atitude revelar muito mais maturidade do que a das restantes crianças com a mesma idade – e o rapazote, com 8 anos, era já um homenzarrão. Sem despeito pelo amor que tinha pela sua família, Alice tinha desejos de conhecer mais pessoas, aprender outros ofícios. Compreensivo, João utilizou os seus conhecimentos para a integrar nos recentes Telefones de Lisboa e Porto, onde trabalhou até à morte do marido. O seu local de trabalho tornara-se a sua segunda casa, os seus colegas de trabalho a sua segunda família, o seu emprego a sua segunda paixão. 

Ao caminhar pelas ruas da sua cidade amada, recordava os bons velhos tempos em que os quatro passeavam sem destino pela cidade. João também se apaixonara pelo Porto e ambos transmitiram essa paixão aos filhos. Infelizmente, com o decorrer dos anos, os filhos lá foram abandonando a cidade. Inês estudou Direito em Coimbra, partindo de seguida para Lisboa onde passou a morar. Foi para a capital com o namorado de faculdade, cheia de encanto e transbordando paixão. A relação não durou muito, pois o sacana logo arrastou a asa a outra. Mas Inês tinha um espírito de lutadora, e sozinha construiu a sua vida, acabando por encontrar o homem com quem viria a casar e ter 2 lindas meninas. Fim de semana sim, fim de semana não, vinham visitar a avó ao Porto, enchendo-a de mimo e alegria.

Pedro estudou Engenharia no Porto, permaneceu 3 anos com os pais e partiu em busca de mais conhecimento. Tendo estudado, trabalhado e morado um pouco por todo o lado, acabou por, finalmente, encontrar o seu lugar em Madrid, há já 10 anos. Nunca casara, o que tinha sido um desgosto para Alice e João nos primeiros anos. Mas esse desgosto passou a compreensão e, posteriormente, a alegria, pois a cada visita do filho percebiam que este seguia o seu próprio caminho. “Há quem nasça com sonhos de casar e ter filhos. E há quem nasça com outros sonhos. O importante é ser feliz!” – dizia João sempre que lhe perguntavam pelo filho.

Ao passar por um casal que discutia, o semblante de Alice alterou-se, as rugas transpiravam tristeza, os olhos perdiam-se em memórias tristes. O seu pensamento era invadido pela sua maior aflição, pela única coisa pela qual não se perdoava. Ela, que em juvenil mocidade pensara ter encontrado o homem da sua vida, aprendeu que o Amor tem vontade própria e que, por muito que se tente, não se consegue mudar-lhe o rumo. A altura em que percebeu que já não amava o homem com quem estava casada, foi a pior da sua vida. O coração torcia-se no peito, o cérebro ardia-lhe na cabeça. Mas, pelo marido e pelos filhos, trocou a rebeldia do amor pela segurança da lealdade. Deixara de amar João como seu cônjuge, mas não como amigo, como confidente, como família. E, sempre – sempre – lhe foi fiel. Era a sua obrigação perante a felicidade que lhe proporcionara. Nunca o viu como sacrifício, apenas como se estivesse a ser castigada, pois queria tê-lo amado eternamente, mas algo ou alguém não o permitira.

Distraíra-se no seu passeio e nas horas. Chegava a hora de ir jantar, ver o telejornal e as telenovelas. Apesar da “companhia” da televisão, odiava o sossego das noites de semana. Agora, preferia as noites de fins de semana, em que ouvia a juventude galgar a calçada, cantar a liberdade e dançar a felicidade. Nessas noites adormecia com o barulho que vinha da rua. Deixava a janela ligeiramente aberta para que o som parecesse mais perto e se sentisse acompanhada.

Mas era uma noite sem barulho. Só tinha a telenovela para a entreter até à chegada do sono que tardava cada dia mais. E quando se deitou na cama, descansando o corpo e preparando-se para mais uma noite de (pouco) sono, não se esqueceu das habituais preces:

- “Deus Nosso Senhor, protegei-me de todo o mal e, quando chegar a minha hora, levai-me para junto daquele que amei e a quem serei sempre leal. Virgem Maria, vós que também sois mães e vistes o vosso Filho sofrer, olhai pela minha família, pelos meus filhos e pelos meus netos. Ámen.”

 

 

 

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